sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ansiedade: o que é e até que ponto pode ser vista com normalidade

Todos nós em algum momento da vida (ou provavelmente em diversos momentos) com certeza já sentiu a sensação de ansiedade, seja por conta da espera por algo importante que desejamos como, por exemplo, a resposta de uma vaga de emprego, ou por medo da possibilidade de que algo ruim possa acontecer, por exemplo, aguardar o final de uma cirurgia de um ente querido. Enfim, as situações de nosso cotidiano que podem gerar algum tipo de ansiedade são inúmeras.
O autor Paulo Dalgalarrondo (2008), define ansiedade como “estado de humor desconfortável, apreensão negativa em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e manifestações psíquicas”.
Sentir-se ansioso em diversos momentos é algo completamente comum e está presente no ser humano desde quando ainda bebês. Se pensarmos sob o ponto de vista fisiológico, a ansiedade tem uma grande função benéfica, pois é um mecanismo que serve para nos preparar para um ataque ou para nos defender de algum perigo percebido, seja ele real ou imaginado.
No entanto, esta mesma ansiedade pode tornar-se prejudicial dependendo da circunstância, intensidade e frequência com que ocorre. A partir do momento em que a ansiedade passa a limitar nossas ações e interferir significativamente em nossa vida e em nossas relações com os outros pode então tornar-se um problema de saúde sério, que merece atenção e tratamento adequado.
Quando a ansiedade passa a trazer prejuízos significativos para nossa saúde e bem estar, a psiquiatria denomina como transtornos de ansiedade ou transtornos ansiosos, e dentro deste grupo de transtornos estão os ataques de pânico, as fobias específicas, fobia social, transtorno obsessivo compulsivo (o famoso TOC), Transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada entre outros diagnósticos.
Lembrando que, cada um destes transtornos só deve ser diagnosticado e devidamente tratado por um profissional de saúde mental especializado, que obedecerá a diversos critérios e estará preparado para tal tarefa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A passagem pela adolescência em meio a influência das redes sociais





A palavra “adolescência” tem sua origem da palavra latina “adolesco”, que significa: “Crescer”. De acordo com o dicionário, adolescência define-se como: “período da vida humana que começa com a puberdade e se caracteriza por mudanças corporais e psicológicas, estendendo-se, aproximadamente, dos doze anos aos vinte”. Portanto, se existe uma palavra que melhor possa definir esta fase da vida, a palavra é “transformação”, pois neste período as transformações tanto físicas, como psíquicas são percebidas e sentidas a flor da pele. E como em todo processo de transformação, podemos dizer que é um momento difícil e doloroso, cheio de inseguranças. É uma fase crítica, repleta de questionamentos e instabilidade, que se caracteriza pela busca de “si mesmo” e da própria identidade. Neste período da vida, começam a ser questionados pelo jovem muitos dos padrões que até então foram estabelecidos, bem como criticadas todas as escolhas de vida feita pelos pais, buscando assim a liberdade e auto-afirmação. Sendo assim, pode ser um período menos ou mais doloroso dependendo de diversos fatores do ambiente em que este jovem esteja inserido.
Que a adolescência é uma fase repleta de transformações e inseguranças, não é nenhuma novidade. No entanto, uma mudança que ocorreu na vida de todos foi o advento das redes sociais, que é um poderoso novo meio de relacionar-se com o outro e que exerce grande influência na sociedade em que os adolescentes de hoje estão inseridos. Seguramente, é possível afirmar que de todas as idades, a adolescência foi a mais afetada pelo acontecimento da internet. Que há um lado positivo para o qual foram criadas estas redes sociais, não podemos negar, mas é preciso ter atenção e cuidado, pois nelas as atitudes estão expostas para receber a opinião dos outros, que muitas vezes podem ser opiniões hostis. Além do que, é evidente uma “camarotização” da vida, onde todos precisam provar que são belos e felizes. Vive-se hoje num mundo em que a individualização é extrema e em que as pessoas são definidas por aquilo que consomem e não por seus valores. Além disto, os relacionamentos pessoais e familiares acabaram se tornando mais frágeis e inconsistentes, reflexo de uma sociedade narcísica, em que os valores como respeito ao outro se perderam.
Portanto, os adolescentes de antes tinham uma maneira de interagir com o mundo significativamente diferente da que tem os adolescentes de hoje. De modo que, o quarto do adolescente que antes podia ser considerado um lugar de reclusão íntima, demarcando sua posição na casa e na família, na verdade tornou-se hoje um portal para sua apreensão do mundo e das relações sociais através das redes, que nem sempre evidenciam a realidade. Enquanto os pais insistem que seus filhos ficam isolados e trancados por horas no quarto, estes dizem que estão em pleno contato com seus amigos.
Tendo isto em vista, o questionamento que devemos nos fazer é o seguinte: Como esta geração de adolescentes, que estão passando por uma fase tão difícil e tão decisiva, que é a transição da infância para a idade adulta, irão formar sua identidade em meio a este turbilhão de informações que são “despejadas” diariamente nas redes?
Neste momento, a melhor contribuição que os pais podem dar aos filhos é ensiná-los a ter autonomia. É preciso que os pais assumam uma posição de orientadores e facilitadores, auxiliando assim seus filhos a passarem com sucesso por este processo. Assim eles poderão formar com mais firmeza e clareza seu novo papel na sociedade como adultos. É fundamental estimular os adolescentes a terem uma atitude crítica, para que não se deixem levar pelo grupo, pela satisfação imediatista. Esses princípios podem ser inseridos pelo diálogo e acompanhamento, mas sempre lembrando que acompanhar não é o mesmo que invadir e controlar. Ou seja, o mais importante é que exista muita conversa e proximidade entre pais e filhos, pois só assim será possível que estes jovens se desenvolvam de maneira saudável.

terça-feira, 12 de julho de 2016

BRINCADEIRA SÉRIA: A importância do brincar no desenvolvimento infantil

  
A relação entre o brincar e o desenvolvimento infantil tem sido um assunto recorrente, constantemente abordado em diversos estudos apoiados pela neurociência. Certamente, você já deve ter ouvido alguém falar, ou lido em algum lugar, que a brincadeira é importante na vida da criança e que esse momento deve ser respeitado. Mas será que você já questionou o motivo pelo qual profissionais especializados têm se preocupado tanto em falar sobre uma atividade que aparenta ser tão simples?
Nos dias atuais, quando as crianças se deparam com suas horas controladas, divididas entre escola,  cursos e outras tarefas extra curriculares, o tempo reservado para as brincadeiras tem sido cada vez menor, por serem consideradas pouco importantes. É muito comum escutar pais verbalizarem, cheios de orgulho, que as agendas superlotadas dos filhos não lhe permitem mais ter tempo para as brincadeiras, numa espécie de discurso que associa o brincar com irresponsabilidade e falta de compromisso para com os estudos. Com esse pensamento, inclusive, algumas famílias estão substituindo férias por reforço escolar, acreditando que seus filhos “estão sendo preparados para se tornarem pessoas responsáveis”.
O que muitas famílias não sabem, ou talvez ignorem, é que as brincadeiras são essenciais para a formação da criança (por esse motivo, é um direito garantido pela Constituição) e que ajudam a desenvolver diversas habilidades, dentre elas, motoras, cognitivas (percepção, memória, atenção, concentração, etc.) e emocionais. São essas habilidades, inclusive, que irão favorecer o processo de aprendizagem da leitura, escrita e matemática. Logo, a criança aprende brincando.
Aprende também a desenvolver seu potencial criativo, autonomia, a interagir com seus pares, a compartilhar ideias, assimilar regras e respeitá-las, a liderar, exercer trocas de papéis (através do faz-de-conta, fantasia), a solucionar situações-problema. Aprende a estruturar e desenvolver seu mundo interior, emocional, a lidar com frustrações, a amadurecer. Todas essas capacidades são essenciais ao seu futuro acadêmico e profissional.
Uma criança que não brinca, ou que brinca muito pouco, apresenta dificuldades em seu desenvolvimento cognitivo, motor e emocional. Assim, respeitar o momento do brincar de seu filho significa respeitar sua infância e etapas de desenvolvimento, garantindo que ele cresça de forma saudável.
Assim como o trabalho é indispensável aos adultos, o brincar é coisa séria.


Texto de  Aline Dunham 

quinta-feira, 10 de março de 2016

 
" Fazer terapia significa trabalhar com alguém que é capaz de enfatizar e esclarecer a natureza e o significado de suas ações. Significa desenvolver uma relação em que é possível falar e sentir sem medo de reprimendas ou críticas. Significa envolver-se em uma relação autêntica, na qual não há necessidade de desempenhar papéis ou de ser quem não é.
Não significa que o analista está sempre certo em suas interpretações. Significa que ele está tentando entrar em sintonia com o analisado. Não significa que o analista acaba com frustrações ou que todos os equívocos do passado são corrigidos. Significa que o terapeuta está ali para tentar ajudar a romper o ciclo, para permitir que a consternação ocorra, para oferecer uma relação suficientemente segura a fim de que o indivíduo se arrisque a remover as barreiras de proteção que o impediram de experimentar aquelas memórias assustadoras há muito reprimidas.
Significa ser capaz de aceitar-se como um ser humano real, com direitos e obrigações, virtudes e fragilidades. 
Significa que o indivíduo deve aceitar que não precisa mais perseguir grandes objetivos, nem enaltecer-se a todo o momento. Mas, também, significa não se ver como impotente nem como a vítima oprimida. Significa aceitar a mortalidade e suas limitações.
Certamente, não significa que todos os problemas estão resolvidos para sempre. Significa estar ciente do seu papel como sabotador da sua vida, e resolver isso. Significa ser capaz de fazer escolhas e defendê-las."

__ Stanley Rosner e Patricia Hermes - O ciclo da autossabotagem

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O PROCESSO DE LUTO

Edvard Munch, Melancolia, 1895.

         A definição de luto segundo o dicionário é ”sentimento de dor pela morte de alguém”, porém, o luto ocorre não somente quando perdemos alguém, mas também está presente em todas as perdas significativas, seja a perda de um objeto, um animal de estimação, um emprego ou do que quer que seja. 

        No entanto, podemos afirmar que o luto pela morte de alguém é um processo que acompanha a humanidade desde os primeiros tempos da história. Afinal de contas, embora seja a morte a única certeza da vida de todo ser vivo, é ela um dos acontecimentos que mais impacta a nós, seres humanos.
A morte de um ente querido na cultura em que vivemos, na grande maioria das vezes, representa uma perda muito significativa, que traz consigo um enorme sofrimento. Devemos ressaltar que este sofrimento é um processo individual e subjetivo para cada indivíduo. Bromberg (2000), define o luto como um conjunto de reações a uma perda significativa e pontua que nenhum é igual ao outro, pois não existem relações significativas idênticas. Ou seja, cada ser humano sente e vivencia determinada perda de uma forma única, valendo-se do significado que aquela perda representa naquele momento de sua vida.
             Faz parte de todo processo de luto uma série de sentimentos, dentre eles os mais comuns são: tristeza, raiva, culpa, ansiedade, solidão, fadiga, desamparo, choque, anseio, emancipação, estarrecimento e alívio. Estes sentimentos podem gerar algumas sensações físicas, que normalmente são: vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, sensação de despersonalização, falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia e boca seca.       
        Consequentemente, quase sempre, estes sentimentos e sensações físicas acabam causando mudanças comportamentais, como: distúrbios de sono, falta de apetite, isolamento social, sonhos com a pessoa falecida, evitar lembranças do falecido, hiperatividade, choro, carregar objetos que lembrem o falecido etc. Esta série de mudanças comportamentais podem acabar atrapalhando a rotina do indivíduo, portanto, é importante saber respeitar o tempo que cada pessoa necessita para vivenciar e elaborar seu processo de luto.       
        Vale destacar ainda, que existe uma grande diferença entre uma pessoa que está passando pelo processo de luto e a pessoa com depressão. Pois, embora pessoas depressivas comumente apresentem a tristeza como sintoma, tristeza não é o mesmo que depressão. 


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quarta-feira, 17 de junho de 2015

A SOLIDÃO AMIGA - por Rubem Alves

O texto de hoje traz reflexões sobre a tão temida "solidão". Seria ela nossa maior inimiga ou amiga?




A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, "parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis". A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: "Como se comporta a Sua Solidão?" Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você." Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.


Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: "Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!"

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que "o inferno é o outro." Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade!

Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.


Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."
E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, "certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia."


Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: "As obras de arte são de uma solidão infinita." É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

"...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília..."

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...
A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.
Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.


Rubem Alves



Rubem Azevedo Alves foi um psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro. 




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quinta-feira, 28 de maio de 2015

CIÚMES DOS IRMÃOS

A chegada de um novo bebê na família é geralmente um momento de grande entusiasmo por parte dos pais, tios, avós e outros familiares. Porém, para o irmão mais velho nem sempre esta novidade é encarada com tanta animação e alegria. Em consequência desta reação por parte do primogênito surgem os seguintes questionamentos na mente dos pais.

  • O que se passa na mente de uma criança ao ver a chegada deste novo integrante que atrai todas as atenções da casa? 
  • Quais sentimentos são despertados no irmão mais velho nesta fase?

Para responder estas perguntas e tornar mais clara a compreensão sobre o tema, leia o artigo abaixo escrito por Luciana Saddi.



CIÚMES DOS IRMÃOS


Quando os irmãos chegam, ou mesmo quando uma criança se sente ameaçada com a vinda de primos e amigos, o que está em jogo é a disputa pelo amor dos pais.

Imagine o que você sentiria se seu marido voltasse do trabalho trazendo outra mulher e lhe dissesse: – meu bem, te amo tanto que resolvi trazer mais uma esposa para casa!

É assim que muitas crianças se sentem diante da vinda de um novo irmão. Sentimentos de raiva, de menos valia e medo de perder o lugar já conquistado prevalecem. Com o passar do tempo sentimentos de amor podem se fazer presentes.

A chegada dos novos rivais não aguça apenas a forte rivalidade infantil, aguça também a ambivalência entre o amor e o ódio, aumentando ainda mais o sofrimento daquele que se viu ameaçado pela perda do amor dos pais.

Por mais raiva que a criança sinta desse pequeno irmão ou grande rival, ela também o ama e também percebe que seus pais esperam dela um sentimento bom e de cuidado para com o recém-chegado.

Fortes conflitos entre o amor e os impulsos agressivos levam ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer alguma compensação por um dano real ou imaginado.

Na vida adulta encontramos essa mistura de sentimentos não apenas em relação aos nossos irmãos, também em nossas relações sociais e no desejo de compensar e reparar tão forte para algumas pessoas. Muitos dos nossos comportamentos são moldados nos padrões infantis, nascidos de conflitos poderosos quando os sentimentos eram vividos de forma absoluta e sem disfarce algum.



Fonte: clique aqui



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